Ensinar é também amar

Sempre tive bons exemplos de professores.
Maus, também, alguns.
Mas tive bons exemplos, ótimos, por vezes.
Todos motores da minha escolha pelo ofício.
Modelos de incentivos, traços de inspiração.
Primeiros passos de uma caminhada.
Primeiros degraus de uma escada.
Empurrãozinhos perfeitos para o túnel iluminado da profissão.

Assisti à boas didáticas. Conheci boas metodologias. Experimentei boas práticas. Conversei com boas histórias. Adquiri, com eles, tais exemplos, bons conhecimentos.

Mas eram sempre exemplos de vivências antigas. Quero dizer, bons exemplos de mentes docentes experientes, somentes.

Hoje, finalmente, tenho o bom exemplo do que há por vir.
Do futuro, da previsão. Da necessidade da profissão.
A aurora, a primavera, a juventude da docência. Não sem experiência.
Pronta para aprender. O novo, o fresco. A vida que a arte precisa para respirar.

Hoje, tenho o bom exemplo que se encaixa no que precisa a carreira de professor – carreira que tanto precisa de tanto.

Hoje, tenho o ótimo exemplo do que é ser um bom professor. Do que é querer ser um bom professor e lutar por isso.

Hoje, tenho esse ótimo exemplo, comigo.
E tenho um baita orgulho disso.

Ela é o que a carreira docente tanto buscou.
Ela é o que a profissão necessita de mais urgente.
Ela é o melhor exemplo de professora que a educação, nos tempos de hoje – e nos tempos futuros – precisa para sobreviver.

Que sorte terão os alunos que serão formados e educados por ela.
Que sorte tem o futuro dessa cada vez mais linda profissão.
Que sorte tenho eu de tê-la ao meu lado, para me mostrar, sempre, o que é ser o que deveríamos ser.

Obrigado por ser esse exemplo.

Ensinar é também amar.
E é pelo amor que ela carrega que tudo acontece da maneira perfeita.

Minha história

Pediram-me para escrever a minha história.
Não minha história inteira, de cabo a rabo, do início ao fim.
Não que eu tenha vivido tanto: vinte e três recém completados.
Pouco para uma vida inteira.
Mas é que a minha história não chegou ao fim.
Afinal, as histórias chegam mesmo ao fim?

Pediram-me para escrever a minha história.
Uma parte dela, para ser breve.
Pediram-na manuscrita, mas quão difícil é para mim, escrevê-la assim.

Tentei, travei. Uma, duas, três vezes.
Pensei em desistir e não escrever.
Resolvi tentar assim, nessa forma, desse jeito meio torto.
E parece fluir.

Então continuarei.

Pediram-me para escolher uma parte da minha história para contar.
Missão impossível essa, pedir para um libriano decidir.
Escolhi, porém, o que acabou de começar.

Escolhi falar de começo para não precisar chegar ao fim.

Pois minha vida, nesse 2017, parece estar recheada de começos.
Encontros felizes que me deram, enfim, horizontes.

Encontrei um ofício, para experimentar o ofício que percebi, recentemente, ter escolhido há tempos.
Encontrei um desejo, para regar a vontade de seguir sempre em frente.
Encontrei um sentimento, para mudar-me para o bem com um belo sorriso no rosto – e um aperto bom do lado esquerdo do peito.

Encontrei tinta de qualidade para a minha caneta pousada sobre o papel.

Agora posso escrever a minha história.

Quem é ela?

Uma aquarela.

Parcela da minha vida. Tabela preenchida.

É ela, só nela, sou dela.

Aquela, somente. Daquela, contente.

Novela com final feliz. Donzela, eu aprendiz.

Revela pela janela a cor amarela. O sol que faltava na paralela.

Deu trela, à manivela. Bastou uma olhadela.

Cautela, pra quê? Singela, viver.

Sem balela. Jogou e levou a cartela.

Abriu a cancela, pendurou na lapela. Encheu a tijela, polvilhou com canela.

Flanela, limpeza. Lindeza da minha certeza.

Muita coisa em comum. Tudo parecido, quase igual. Um que o outro zela. Vice-versa consensual.

Encanto de capela. Luz de vela. Desfile de passarela.

Resultado de uma paixão; sequela.

Do meu coração, tutela.

Cinderela? É bela, quão bela, tão bela!

O nome? A graça?

Quem é ela?

Ela

Não escrevo mais como escrevia, não leio mais como lia.

Não estudo mais como estudava, não olho mais como olhava.

Não me atento mais como me atentava, não me dedico mais como me dedicava.

Não observo mais como observava, não admiro mais como admirava.

Não gosto mais como gostava, não desejo mais como desejava.

Não penso mais como pensava, não sonho mais como sonhava.

Não pretendo mais como pretendia, não quero mais como queria.

Não sinto mais como sentia.

Não é mais como já foi.

Não mais.

Nada mais.

Hoje, escrevo diferente, leio diferente. Hoje eu estudo diferente, olho diferente. Tenho me atentado diferente, me dedicado diferente. Observo diferente, admiro diferente. Hoje eu gosto diferente, eu desejo diferente. Diferente eu penso e diferente eu sonho. Hoje, eu pretendo diferente e eu quero diferente. Eu sinto diferente, hoje. É diferente.

É mais.

E é melhor.

Eu escrevo ela, eu leio ela, eu estudo ela, eu olho ela, eu me atento a ela, eu me dedico a ela, eu observo ela, eu admiro ela, eu gosto dela, eu desejo ela, eu penso nela, eu sonho com ela, eu pretendo ela, eu quero ela, eu sinto ela.

Hoje, ela.

Não mais como antes. Não mais como nada mais já foi.

É mais e é melhor e é ela e é hoje.

Porque ela é hoje e ela é mais e ela é melhor e ela é ela.

Ela é ela.

E muito mais.

Não que ela tenha me tirado as palavras.

É que, agora,

as palavras

são todas

para

ela.

Dez anos de saudade

(foto: arquivo pessoal)
(foto: arquivo pessoal)

Qual o seu maior medo? – perguntaram-me um tempo atrás. E eu não tinha resposta para dar.

Hoje, depois de todos esses anos de uma saudade que eu sei ser eterna, eu tenho.

O meu maior medo é perder-te.

Perder-te nas minhas lembranças, nas minhas memórias de criança.

Você foi minha infância, meus primeiros doze anos de vida.

*

Esse é aquele texto difícil de sair. Aquele engolido a seco, travado na garganta. É aquele texto que sempre teve início, mas nunca conclusão.

Esse é aquele texto que sempre escrevi no dia a dia da minha mente, mas que nunca adquiriu forma concreta.

*

Dez anos!

Dez anos – quase metade do que eu já vivi.

E hoje, dez anos depois, eu continuo com a certeza de que você, vó, foi a quase metade mais completa de toda a minha vida.

*

Sempre foi difícil e continua sendo.

É o assunto mais difícil de falar. É a parte mais difícil de contar.

Tão pequenas são as palavras para a imensidão da tua presença.

*

Não quero recorrer a fotos. Não posso entregar-te ao escuro do labirinto da minha cabeça. Não quero, não posso. Não vou te esquecer.

Se for para ser difícil de lembrar, que seja difícil de esquecer.

*

Dez anos sem você. Dez anos sem o colo, o abraço, o sorriso. Dez anos, vó.

*

Às vezes sinto teu cheiro pela casa; e sei que você sabe disso.

Obrigado por continuar aqui.

Mas, com dor, eu peço: não fique.

Vá.

Vá e volte, sempre.

A casa é sua, nossos corações também.

*

Gratidão infinita por tua existência.

Concha

(foto: arquivo pessoal)
(foto: arquivo pessoal)

Ele caetaneou sozinho no silêncio da noite, achou-se incapaz
Parou na beira do cais e rezou um gil em mensagem de paz
Devorou o oceano, djavaneou
Jogou um chico na água e o chico afundou

Sonhou acordado, colou-se ao sal
Arrancou um tufão do seu coração e invadiu colossal
Esperou os sinais, sem confusão
Foi contra a corrente e o tempo rodou naquela explosão

Andou no escuro
Pai Nosso, Iemanjá
Mergulhou com a pedra
No fundo do mar

A água tomou a pele salgada
Bailou docemente na sua chegada

Rasura

(foto: arquivo pessoal)
(foto: arquivo pessoal)

Abri o baú.
Fechei a visão.
Na teia, peguei
Um pensamento.
Apontei-o. Acomodei-o
No dorso da mão esquerda.
Não sou canhoto. Li.
Li linhas lilases
Na página crua.
Colori o vazio.
Espalmei o pensamento.
Não gostei. Esborrachei.
Tudo cru
Outra vez.

(foto: arquivo pessoal)

Abri o baú.
Fechei a visão.
Peguei a
Imaginação.
Apontei-a. Acomodei-a
Na palma do pé direito.
Não sou canhoto. Escrevi.
Escrevi versos crus
Na folha lilás.
Descolori o livro de memórias.
Apanhei da imaginação.
Não gostei. Esborrachei.
Transparente
Outra vez.

Abri a visão.
Rasguei o baú.

Na lombada,
Um rabisco.

Encontros e despedidas

(foto: arquivo pessoal)
(foto: arquivo pessoal)

Já cantou Maria Rita na abertura de Senhora do Destino, aquela canção de Milton e Fernando Brant.

A vida é uma plataforma de uma estação, a nossa estação.

A vida desse lugar, nossa viagem. Ida e volta de pessoas que passam em nossa vida, que vem e vão.

Todo dia é um vai e vem, a vida se repete.

Um trem chega e nos traz presentes. Outro parte e leva embora quem deve ir.

Tem quem chegue pra ficar. São aqueles que estão até hoje. Os próximos, os verdadeiros, os que valorizam e os que realmente importam.

Tem quem vai pra nunca mais, tem. Aqueles que marcam e simplesmente vão. Que deixam cicatrizes ou que alimentam o vapor da nossa pele.

Tem quem vem e vai e volta e vai e quer sempre voltar. Sempre. E a gente gosta. Que voltem, quando precisarmos, mas que também saibam ir novamente.

Tem quem vai e quer ficar. Quem gostou de chegar, mas que há de ir. E vai.

Tem quem vem só olhar, ô se tem. Quantos têm. Alguns que olharam e já se foram. Outros que estão aí ainda, olhando e olhando. Outros ainda que vivem voltando pra olhar. Curiosos de plantão.

Tem quem vem para chorar, quando precisam de mãos para secar. Tem quem vem e faz chorar, sem pano deixar.

Mas tem quem vem e faz sorrir, quando precisamos de abraços, palavras e piadas para rir. Tem quem vem para sorrir, com a beleza de viver sem preocupar.

Por despedidas necessárias. Por menos adeus e mais até logo.

Por encontros necessários também. Por mais prazer.

No vai e vem da estação, por mais sorrisos novos e antigos.

Você que chegou e ficou. Você que foi pra nunca mais. Você que veio e quer voltar. Você que foi e quer ficar. Você que veio só olhar. Você que veio a sorrir e também você que veio a chorar.

Bem-vindos!

DEZEMBRO

(foto: arquivo pessoal)
(foto: arquivo pessoal)

Não é assim.

Não é assim por dez meses quase completos.

É tudo muito escuro, no restante do ano.

Muita sombra entre as árvores, muita noite entre os sóis, muita escuridão entre as pessoas, muita falta de luz entre as vinte e quatro horas corridas e desperdiçadas.

Mas é assim.

Ao menos uma vez ao ano, é assim.

É luz.

As árvores brilham, os sóis cintilam, as pessoas se iluminam e os dias, num alívio, respiram claridade.

Esqueçam os apressados do supermercado, os precipitados das propagandas e os desajuizados da ignorância. É agora que tudo começa, de verdade, a clarear.

O ponteiro do relógio andou. Às vezes rápido demais, às vezes de menos.

É dezembro e o cheiro da ceia já vem da cozinha. É o último mês de 2016 e os preparativos já decoram a sala da casa. Faltam quatro semanas para acabar o ano e o espírito já vive.

Por não ser assim no restante do ano,

                                        é bom ser assim,

                                                                              quando

                                                                                                              é

                                                                                                                                                   Natal.